Esperança
.jpg)
Hoje como sempre conversei bastante com o Daniel. Conversamos sobre a vida, o trabalho, as oportunidades etc. Esse cara para mim é espectacular, pois a sua simplicidade e a forma como ele lê o mundo me fascina. Nessas conversas percebo que o Daniel, eu e outros amigos temos uma forma peculair de ler e entender a realidade, é tão bom poder confessar e partilhar com outros os segredos de um ser inquientante e reflexivo que sou, assim não preciso criar heterônimos como fez Fernando Pessoa. Ele, o Daniel sempre me surpreende com suas frases mal elaboradas, mas cheias de propriedade, em nosos papos, ah! detalhe, nossas conversas acontecessem em algum pais da escandinavia.,este diálogo nasceu nas escadarias da Saint Isaac Church em Saint Petersburg na Rússia.
Em uma dessas conversas, ele foi tão generoso e me disse que seu coração se movia mais pela busca, do que propriamente pelo achado, disse me que no seu coração havia uma inquietação que o tornava um eterno caminhante. Sou partidário desse pensamento, pois o grande desafio humano é resistir à sedução do repouso, pois nascemos para caminhar e nunca para nos satisfazer com as coisas como estão. A insatisfação citada pelo Daniel é um elemento indispensável para quem, mais do que repetir, deseja criar, inovar, refazer, modificar, aperfeiçoar. Assumir esse compromisso é aceitar o desafio de construir uma existência menos confortável, porém ilimitada e infinitamente mais significativa e gratificante. A partir desse diálogo começamos a falar sobre o desafio de viver, mas viver perigosamente assim como Niestchz certa vez exclamou: viva, mas viva perigosamente. Então começamos a tecer um texto sobre as dimensões da vida, sua efemeridade, um texto de exaltação a esperança.Temos hoje um razoável consenso: os tempos estão terríveis, complicados, partilhamos, uma época de grande intranquilidade espiritual, inúmeros padecimentos físicos, de infindos distúrbios existenciais, de profundos dilemas morais. Cabe, porém, uma questão: alguma vez não foi assim? Levando em conta que todo e cada ser humano sempre viveu na era contemporânea, em qual delas não teria valido, então o alerta de Guimarães Rosa de que “ viver é perigoso”?
No entanto, resistimos! A esperança é um princípio vital, expresso na sábia e verdadeira constatação comum de que “ enquanto há vida há esperança”, mesmo face às mais intransponíveis circunstâncias achamos possível ser de outro modo, inventamos e reinventamos alternativas, recusamos a possibilidade de as realidades nos dominarem, e, sem cessar, sonhamos com o mais e o melhor. Em princípio, como para outros animais, as memórias das inevitáveis e sofridas experiências cotidianas deveriam nos deixar com medo da repetição, o temor cauteloso pelo retorno da sensação ruim e, até, um impulso em direção ao desalento. Contudo, de novo, resistimos.
É por isso que, em pleno Renascimento do século 16 no mundo ocidental, o magistral Michelangelo dizia que “ Deus concedeu uma irmã à recordação, e chamou-lhe esperança”. Essa ideia foi retomada no século 19 pelo francês Victor Hugo, não por acaso um dos expoentes máximos do Romantismo, que afirmava ser “ a esperança uma memória que deseja”; e, ainda, na obra Os Miseráveis, o mesmo autor nos instiga, afirmando que “ julgar-se-ia bem mais corretamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa”. Fantástico! Li sobre isso na faculdade, mas só compreendi anos depois, era uma questão de maturidade e “acontecências”.
Sonho aí não significa, claro, devaneio inútil ou delírio; sonho nessa acepção é o lugar do não-pronto, mas, desejado, ansiado, querido. Nessa direção, também o Oriente nos socorre com a milenar inspiração que anima os escritos de Zhou Shuren, mestre da moderna literatura chinesa, conhecido pelo pseudônimo literário Lu Xun; escreveu ele que “ a esperança não é nem realidade nem quimera, ela é como os caminhos da terra: sobre a terra não havia caminhos; eles foram feitos pelo grande número dos que passam”.
O dinamarquês Jacob Riis considerado o primeiro fotojornalista dedicou sua arte na transição do século 19 para o 20 a escancarar a magnitude dramática da pobreza urbana; publicou centenas de fotografias daquelas que Victor Hugo imortalizaria como miseráveis, mas plenos de esperança. O fotógrafo consignou a humana capacidade de não desistir em uma belíssima imagem, ao dizer que “ quando nada parece ajudar, eu vou e olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes sem que uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes”.
Os excessivos pragmáticos ou os chamados”idiotas da objtividade ” diriam ser esta uma concepção piegas; são esses, com muita probabilidade, incapazes de compreender a esperança como produtora de futuro e aniquiladora da dureza do existir. Assim, não perceberiam a profunda beleza contida na lenda atribuída ao, também cortador de pedras, Michelangelo. Ao ser perguntado sobre como fizera a escultura de Davi com 4,5 metros em um só bloco de mármore, eu acho que essa escultura está guardada hoje na Academia de Belas artes de Florença, ele disse: “Foi fácil, fiquei um bom tempo olhando o mármore até nele enxergar o Davi. Aí, peguei o martelo e o cinzel e tirei tudo o que não era Davi”…
Enfim, sempre tentei caminhar no prumo da normalidade da existência, algo quase impossível para mim, porém, se não tributarmos um pouco de poesia a nossa vida será insuportável viver num mundo tão normal, eu aprendi com a rainha Sílvia que o mundo tem o nosso tamanho, mas as minhas acontecências me ensinaram que é preciso ter um outro olhar, da vida e de tudo que compõe a colcha de retalhos que é a nossa existência. Então faça como Michelangelo, tire tudo que não é Davi de sua vida.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário